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História da mistura de etanol na gasolina brasileira remonta a 1930

A recente decisão do CNPE de aumentar a proporção de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%, por 180 dias, reflete uma estratégia histórica do Brasil para mitigar crises energéticas globais, que teve seu ponto alto com o lançamento do Proálcool nos anos 1970 e o Fiat 147, primeiro carro a rodar 100% com o biocombustível.

AJ
Redação AJISP
15 de julho de 2026 às 07:01 · há 2 d
História da mistura de etanol na gasolina brasileira remonta a 1930
História da mistura de etanol na gasolina brasileira remonta a 1930 — Foto: G1

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) anunciou, nesta terça-feira (14), o aumento temporário da mistura de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%, por um período de 180 dias. A medida visa estabilizar os preços do combustível em um cenário de instabilidade global, influenciado pela retomada dos conflitos entre Estados Unidos e Irã, que impactam diretamente o fornecimento e o custo do petróleo.

A estratégia de incorporar etanol à gasolina no Brasil tem raízes profundas, iniciando-se em 1931 com o Decreto nº 19.717, que exigia a adição de 5% de álcool à gasolina importada. A implementação progressiva (2% em julho, 3% em agosto, 4% em setembro e 5% em outubro de 1931) buscava reduzir a dependência externa e fortalecer a agricultura nacional. Essa política foi institucionalizada com a criação do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) em 1933, que regulava o setor sucroalcooleiro e direcionava o excedente de cana para a produção de álcool, visando estabilizar o mercado.

Contudo, a grande virada para o etanol como alternativa energética ocorreu nos anos 1970, durante a crise global do petróleo. Em 1973, o fechamento das torneiras pela Opep elevou os preços do barril de US$ 1,90 (1972) para US$ 11,20 (1974), pressionando a balança comercial brasileira. Em resposta, o governo instituiu o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) em 14 de novembro de 1975, por meio do Decreto nº 76.539. O programa incentivava a produção e o uso do álcool, consolidando-se como uma das maiores políticas de substituição de combustíveis fósseis por renováveis no mundo, baseada na mistura obrigatória, expansão da distribuição e desenvolvimento de veículos a álcool.

Antes do Proálcool, nos anos 1970, tentativas de conversão de motores para álcool eram improvisadas, gerando problemas operacionais e degradação de componentes devido à ausência de padronização e pesquisas adequadas. Componentes metálicos, como alumínio e cobre, eram corroídos pelo biocombustível, e os veículos sofriam com dificuldades de partida em baixas temperaturas. Somente em 1979, o mercado automotivo alcançou um marco significativo com o lançamento do Fiat 147, apelidado de "Cachacinha", o primeiro carro no mundo projetado para operar 100% com etanol, após extensos testes e ajustes técnicos.

O Proálcool enfrentou desafios na década de 1990 devido à queda dos preços internacionais do petróleo, que reduziu sua competitividade. No entanto, o programa foi retomado a partir de 2003, impulsionado pelo surgimento dos veículos bicombustíveis (Flex), desenvolvidos em parceria por produtores de etanol e a indústria automobilística. Essa tecnologia transformou o Brasil em um laboratório global para o desenvolvimento de veículos Flex, que atualmente representam 85% da frota nacional, com mais de 32 milhões de carros.

A padronização da nomenclatura de "álcool" para "etanol" ocorreu em 2010, após uma resolução da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 2009. A mudança, defendida pela União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), buscava evitar confusões com campanhas de segurança no trânsito e alinhar o termo ao padrão internacional, conferindo maior precisão e valor comercial ao produto. Desde então, o etanol consolidou-se como um pilar da matriz energética brasileira, desempenhando papel crucial na sustentabilidade e segurança energética do país.