Árbitro brasileiro influenciou jogo da Copa de 1962 e ajudou Brasil no bicampeonato
João Etzel Filho, húngaro-brasileiro, confessou ter manipulado o empate entre União Soviética e Colômbia por retaliação e foi acusado de arranjo para liberar Garrincha na final daquele Mundial.

João Etzel Filho, árbitro húngaro-brasileiro, destacou-se na Copa do Mundo de 1962, no Chile, por dois episódios controversos que vieram à tona anos após o torneio. Ele alegou ter manipulado o resultado de um jogo entre União Soviética e Colômbia e foi apontado como peça central em um suposto esquema para a participação de Garrincha na final do Mundial, que culminou no bicampeonato da Seleção Brasileira. Etzel, nascido em Budapeste em 1916 e naturalizado brasileiro, faleceu em 1988 no Guarujá, litoral paulista.
Reconhecido como um dos principais árbitros nacionais nas décadas de 1950 e 1960, Etzel teve uma carreira influente, apitando clássicos estaduais e competições internacionais como a Copa América e a Libertadores. Chegou a atuar como auxiliar na final da Libertadores de 1962, vencida pelo Santos. Sua trajetória no futebol paulista e o trânsito livre na Federação Paulista de Futebol facilitaram sua indicação para a Copa do Mundo de 1962.
Durante o Mundial, Etzel comandou apenas uma partida: o empate em 4 a 4 entre União Soviética e Colômbia, jogo que registrou o primeiro gol olímpico da história das Copas. Anos depois, em uma entrevista ao jornal espanhol As, e reforçado por um relato atribuído a ele na revista Placar, Etzel confessou ter influenciado o resultado em retaliação à União Soviética pela invasão que sufocou a Revolução Húngara de 1956. Ele admitiu ter interferido em dois dos quatro gols colombianos, impulsionado por um ressentimento pessoal contra os soviéticos.
Outra controvérsia na qual Etzel esteve envolvido diz respeito à participação de Garrincha na final da Copa de 1962. Expulso na semifinal contra o Chile, Garrincha precisava ser julgado pela FIFA. Olten Ayres de Abreu, outro árbitro brasileiro na Copa, acusou Etzel, em 2010, de ter intermediado um pagamento de US$ 10 mil ao bandeirinha Esteban Marino para que este não comparecesse ao julgamento, inviabilizando o depoimento e favorecendo a absolvição de Garrincha. Sem a testemunha ocular, o craque foi liberado para jogar a final.
Etzel, porém, negou o pagamento de suborno ao Estadão em 1979, afirmando que Marino recebeu apenas as diárias da FIFA. Contudo, na mesma entrevista, ele admitiu ter pressionado o assistente a não registrar a expulsão de Garrincha, demonstrando sua influência nos bastidores. A Seleção Brasileira venceu a Tchecoslováquia por 3 a 1 na final, garantindo o bicampeonato mundial com a participação crucial de Garrincha.
A carreira de Etzel foi marcada por seu poder nos bastidores do futebol. Em 1968, um jornalista e árbitro denunciou Etzel como “chefe” de um esquema de corrupção, que envolvia dirigentes e árbitros, onde ele interferiria em arbitragens beneficiando clubes de divisões inferiores. Em 1979, Etzel admitiu sua influência, afirmando: “Mandei, sim. Tive amigos e inimigos. Os inimigos eram poucos, incapazes de me fazer mal. Tentaram, mas não puderam me derrubar.”
Após se aposentar da arbitragem em 1963, João Etzel Filho atuou como comentarista esportivo e presidiu a Comissão de Arbitragem da CBF entre 1986 e 1987. Ele viveu seus últimos anos no Guarujá (SP), onde residia e faleceu em 1988.



