Necropsias revelam riscos cardíacos de fisiculturistas e uso de anabolizantes
Análises post-mortem e estudos apontam relação entre óbitos prematuros de atletas, cardiomegalia e o abuso de esteroides anabolizantes, tema que voltou à tona com mortes recentes no Brasil.
A morte do fisiculturista americano Dallas McCarver, aos 26 anos, em agosto de 2017, colocou em evidência os riscos cardíacos associados ao esporte, especialmente quando há uso de esteroides anabolizantes. Cinco meses antes, McCarver já havia apresentado problemas respiratórios e quase desmaiou em uma competição, sendo posteriormente encontrado inconsciente em casa. A necropsia revelou um coração pesando 833 gramas, mais que o dobro do esperado, com espessamento do ventrículo esquerdo e acúmulo de gordura nas artérias. A análise toxicológica confirmou níveis de testosterona sintética 30 vezes acima do normal, levando à conclusão de que o abuso de anabolizantes contribuiu para o óbito.
Casos semelhantes ganharam repercussão no Brasil recentemente. Mailson Araújo, 35 anos, e Gabriel Ganley, 22 anos, ambos fisiculturistas, faleceram subitamente. Edson da Silva Ferreira, 40 anos, morreu de infarto, e Wanderson da Silva Moreira, 30 anos, sofreu parada cardiorrespiratória em competição. Esses eventos reacenderam o debate sobre as mortes prematuras e súbitas entre atletas da modalidade, todos relacionados a problemas cardíacos, e a possível conexão com o uso de substâncias que promovem o aumento de massa muscular.
Um estudo publicado no European Heart Journal, que acompanhou mais de 20 mil fisiculturistas por 16 anos, identificou uma taxa de morte súbita cardíaca cinco vezes maior entre atletas profissionais em comparação com amadores. Entre os competidores do Mr. Olympia, o estudo registrou sete mortes a cada cem atletas, com idade média de apenas 36 anos. O cardiologista Luiz Eduardo Fonteles Ritt, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia na Bahia, explica que o aumento do coração em atletas pode ser uma adaptação fisiológica ao treino intenso ou, de forma mais grave, resultado do uso de anabolizantes, que podem levar à dilatação e perda de força do músculo cardíaco, culminando em insuficiência cardíaca.
O endocrinologista e médico do esporte Clayton Macedo, coordenador do programa #BombaTôFora, reforça a distinção: enquanto o fisiculturista natural pode ter um crescimento cardíaco compensatório, sem a gravidade observada em usuários de anabolizantes. Um estudo dinamarquês de 2025 revelou que usuários de anabolizantes têm risco quase nove vezes maior de cardiomiopatia, três vezes maior de infarto e mais que o triplo de insuficiência cardíaca. O ex-fisiculturista Rodrigo Góes, agora criador de conteúdo contra o uso indiscriminado de anabolizantes, descreve os efeitos, mas também os colaterais, concluindo que “não existe forma segura de usar esteroides anabolizantes”.
Necropsias de fisiculturistas falecidos, ligadas ao uso de anabolizantes, demonstram as alterações estruturais do coração. Estudos forenses na Itália e Espanha revelaram corações de fisiculturistas jovens falecidos com peso significativamente acima do normal e paredes dos ventrículos excessivamente espessas. Similarmente, McCarver teve o coração 73,7% maior que o padrão e paredes do ventrículo esquerdo até 125% mais espessas. O atestado de óbito de Gabriel Ganley, por exemplo, apontou cardiomiopatia hipertrófica, uma condição que pode ter origem genética, mas também ser induzida por anabolizantes ou agravada por predisposições genéticas e uso de substâncias.
Apesar dos riscos evidentes, a detecção da relação entre anabolizantes e mortes é dificultada pela ausência de dados sistemáticos no Brasil. Médicos-legistas relatam que esteroides anabolizantes, por serem similares a hormônios naturais, são difíceis de identificar em exames toxicológicos de rotina. Isso significa que, em muitos casos, a causa imediata da morte é registrada como parada cardíaca ou cardiomiopatia, perdendo-se o vínculo com o uso das substâncias. Embora a prescrição de anabolizantes para fins estéticos seja proibida no Brasil desde 2023, o mercado continua a crescer, segundo especialistas, e as mortes relacionadas persistem, muitas vezes sem a devida documentação da causa real em laudos oficiais.


