Tarifa dos EUA contra o Brasil será a maior da América do Sul a partir de julho
Novas taxas impostas por Donald Trump elevarão a tarifa média de importação brasileira para 18,17%, superando vizinhos e refletindo dimensões políticas, econômicas e diplomáticas.

A partir de 22 de julho, o Brasil registrará a maior tarifa aplicada pelos Estados Unidos entre os países da América do Sul. As novas taxas, anunciadas por Donald Trump na última quarta-feira (15), impactarão diretamente o comércio bilateral, elevando a tarifa de importação brasileira para 18,17%, conforme dados do Global Trade Alert (GTA), uma iniciativa do centro de estudos suíço St. Gallen Endowment. Atualmente, o Brasil está empatado com o Uruguai, com uma tarifa efetiva média de 11,66%, atrás apenas do Paraguai, que registra 12,92%. A porcentagem calculada pelo GTA difere da alíquota de 25% anunciada por Trump, pois considera o peso de cada produto na pauta exportadora e as exceções previstas nas novas regras.
Especialistas apontam que a nova política tarifária americana contra o Brasil cruza quatro dimensões principais: política, econômica, estratégica e diplomática. Carlos Pio, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior e professor da UnB, avalia que a medida reflete uma mudança na doutrina comercial de Trump, de livre mercado para uma visão nacionalista, em busca de proteger setores industriais e favorecer alianças políticas. Para Pio, o Brasil se torna alvo não apenas por sua economia relativamente fechada, mas também pelo desalinhamento ideológico, percebido como uma relação pessoal com Trump, mais do que institucional com a Casa Branca.
Jan Marcel, professor de Relações Internacionais da UFRN, acrescenta que a relevância econômica do Brasil, a maior da América Latina, e a manutenção de fortes relações econômicas com a China, colocam o país no centro da disputa por influência global entre Estados Unidos e China. Nesse contexto, a tarifa é vista como um instrumento de pressão que transcende o comércio bilateral. Celso Figueiredo, especialista em comércio internacional e professor da FGV, reforça que as tarifas de Trump se transformaram em ferramentas de pressão política e arrecadação fiscal sob a doutrina 'America First', com o objetivo de aumentar a competitividade dos produtos americanos e a receita governamental.
Figueiredo observa que a justificativa técnica objetiva para as novas tarifas, conforme a nota publicada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) em junho, é rasa, sugerindo um forte componente político na decisão. Ele também destaca que o monitoramento americano vai além, com investigações em curso contra 60 países, incluindo o Brasil, sobre suposto ganho de vantagem competitiva por meio de trabalho forçado. Essa vigilância, segundo o especialista, denota o cuidado dos EUA em proteger sua hegemonia e o dólar nas transações internacionais, em um cenário onde blocos como o Brics discutem moedas próprias.
O governo brasileiro classificou a decisão como um 'marco lastimável' e defendeu que não há justificativa para medidas unilaterais, dada a balança comercial favorável aos EUA. Fontes da Casa Branca sinalizaram que qualquer retaliação brasileira poderia levar os Estados Unidos a 'potencialmente modificar' suas ações. Contudo, Figueiredo considera que um cenário de escalada não é o mais provável. A Lei de Reciprocidade, sancionada após o primeiro 'tarifaço' e posteriormente 'engavetada', indica um padrão. A expectativa é que a negociação diplomática prevaleça, especialmente porque a nova lista de exceções tarifárias deve proteger uma parcela considerável das exportações brasileiras.


