Tarifa dos EUA impacta máquinas agrícolas e etanol no interior paulista
Nova taxação americana de 25% sobre produtos brasileiros, a partir de 22 de julho, gera preocupação na região de Piracicaba, polo crucial para a indústria metalmecânica e a cadeia sucroenergética nacional.

A imposição de uma tarifa adicional de 25% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, com vigência a partir de 22 de julho, acende o alerta para a economia do interior de São Paulo. O Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras (Simespi) manifestou, nesta quinta-feira (16), profunda preocupação com os prováveis impactos sobre setores estratégicos como o de máquinas agrícolas e a cadeia do etanol, áreas onde a região de Piracicaba se destaca como um dos principais polos produtivos do país em máquinas, equipamentos, componentes e bens de capital.
Segundo o presidente do Simespi, Paulo Estevam Camargo, a medida americana poderá gerar consequências severas, afetando tanto as empresas exportadoras quanto aquelas que fornecem insumos para o setor sucroenergético. Camargo alerta para o risco de perda de postos de trabalho, redução da arrecadação de impostos para municípios e estado, e um comprometimento significativo do desenvolvimento regional. Ele enfatiza que a região concentra empresas altamente especializadas no atendimento às usinas de açúcar e etanol, e qualquer abalo na competitividade do etanol brasileiro ou na retração de investimentos neste segmento reflete diretamente na indústria metalmecânica local.
Carlos Vian, professor e pesquisador do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq/USP, corrobora a análise, indicando que o setor metalmecânico de Piracicaba e cidades vizinhas é um dos mais vulneráveis, podendo enfrentar desindustrialização e demissões nos próximos meses. Vian ressalta que o mercado americano é um destino relevante para as exportações da região e que empresas multinacionais, com produção local voltada para suas matrizes nos EUA, podem realocar suas operações para outras filiais globais que não sofram com a taxação. O governo brasileiro, por sua vez, anunciou um programa de apoio às empresas afetadas e considera a aplicação da Lei da Reciprocidade em resposta.
A decisão de taxar produtos brasileiros foi divulgada na quarta-feira (15) pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). A medida é fruto de uma investigação de um ano, na qual os EUA alegam que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio bilateral. Entre os pontos questionados estão o sistema de pagamentos Pix, aspectos relacionados a plataformas digitais e a dificuldade de entrada do etanol americano no mercado brasileiro. Interlocutores do governo brasileiro, contudo, consideram que as questões levantadas pelos EUA são inegociáveis e que a tarifa imposta tem caráter estritamente político.
Diante do cenário, Vian expressa apreensão de que a nova taxação seja instrumentalizada politicamente em períodos eleitorais, desviando o foco das necessárias negociações técnicas. Ele defende que a solução passe por uma abordagem diplomática profissional, com discussões técnicas conduzidas pelo Itamaraty para mitigar os danos econômicos regionais. O Simespi, por sua vez, advoga por cautela e diálogo, posicionando-se contra medidas de reciprocidade ou retaliação, argumentando que uma guerra tarifária apenas agravaria a situação e a insegurança nas relações comerciais, elevando custos e dificultando o ambiente de negócios.



