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Tuiuiús estabelecem refúgio inesperado no Rio São Francisco, em Minas Gerais

Pesquisadores revelam que a ave, símbolo do Pantanal, tem prosperado em várzeas mineiras há mais de um século, demonstrando a resiliência da biodiversidade local e a importância do rio.

AJ
Redação AJISP
21 de julho de 2026 às 17:12 · há 1 d
Tuiuiús estabelecem refúgio inesperado no Rio São Francisco, em Minas Gerais
Tuiuiús estabelecem refúgio inesperado no Rio São Francisco, em Minas Gerais — Foto: G1

A ave Jabiru mycteria, popularmente conhecida como tuiuiú e emblemática do Pantanal, tem um novo lar em Minas Gerais. Longe de seu habitat tradicional nas grandes planícies alagadas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a espécie encontrou refúgio e prospera nas várzeas do Rio São Francisco, na região Centro-Oeste do estado.

Com suas características marcantes – pernas longas, bico comprido, cabeça preta, corpo branco e faixa vermelha no pescoço – o tuiuiú impressiona pelo porte, podendo atingir 1,60 metro de altura, 3 metros de envergadura e pesar até 8 quilos. Esta cegonha, reconhecida por voar com pescoço e pernas esticados, adaptou-se às condições do interior mineiro, conforme observado por especialistas.

O biólogo Pedro Rocha, profundo conhecedor da biodiversidade de Arcos (MG), destaca que a presença de tuiuiús na região não é um fenômeno recente. Registros históricos do Brasil Império, incluindo observações do geólogo Barão de Eschwege entre 1811 e 1821, já indicavam a presença da ave no interior mineiro. Esta continuidade demonstra a relação intrínseca do Rio São Francisco com a ocorrência de espécies típicas do Pantanal na região.

As áreas úmidas do Rio São Francisco em Arcos sofrem com a sazonalidade, alternando entre secas e grandes cheias, especialmente entre novembro e março. As aves dependentes desses ambientes migram em busca de condições favoráveis, e o tuiuiú não é exceção. Além do tuiuiú, outras espécies migradoras como o cabeça-seca, colhereiro, maguari, pato-de-crista, e diversos ralídeos (saracuras e sanãs) também são observadas na região.

Pedro Rocha acompanha um casal de tuiuiús desde 2023, observando seus hábitos reprodutivos. Após o primeiro ninho ter sido removido devido à queda de árvores em uma propriedade particular, o casal estabeleceu um novo ninho a cerca de um quilômetro de distância, demonstrando o comportamento territorialista da espécie. O biólogo pôde documentar a reprodução, com o acasalamento ocorrendo no final do período chuvoso (fevereiro/março), os ovos sendo chocados entre abril e maio, e os filhotes emergindo antes de junho. Na região, a alimentação dos tuiuiús consiste principalmente em caramujos e muçuns, um tipo de peixe-cobra, ambos abundantes nas várzeas. Rocha já catalogou 11 ninhos e cerca de 200 indivíduos em diferentes pontos de Arcos.

“Dá pra imaginar o Rio São Francisco, um rio tão importante para o Brasil, ele tá ali com os seus berçários resistindo. Não significa que está perfeito, mas tem peixe conseguindo se reproduzir ali, tem espécies, né, não só o tuiuiú. Muitas aves, muitos mamíferos que estão usufruindo desse ambiente ainda”, concluiu Pedro Rocha, ressaltando que o “Velho Chico”, com seus mais de 2.800 quilômetros, “une o país e une a fauna também”, mantendo uma rica biodiversidade em seu percurso pelo interior do Brasil. Este é um exemplo da capacidade de adaptação da vida selvagem e da importância crítica da preservação dos ecossistemas fluviais.