Aplicativos de atividade física alertam mulheres sobre gravidez e aborto
Dispositivos como anéis inteligentes, smartwatches e coletes conectados à internet, têm detectado mudanças corporais associadas à gestação e perdas gestacionais, antes mesmo de testes clínicos. Especialistas alertam para o risco de aumento da ansiedade.

Uma nova tendência tem surgido entre mulheres que utilizam aplicativos de monitoramento de saúde: a detecção precoce de gravidez e até mesmo de abortos espontâneos por meio de dispositivos vestíveis, como anéis inteligentes e smartwatches. Relatos indicam que esses aparelhos, que registram dados como batimentos cardíacos, temperatura corporal e variabilidade da frequência cardíaca (HRV), podem identificar alterações fisiológicas relacionadas à gestação antes dos exames tradicionais.
Um caso notável é o de Ravika, uma advogada de 34 anos. Durante suas férias, seu anel inteligente Oura emitiu um alerta de saúde indicando batimentos cardíacos aumentados, temperatura corporal elevada e HRV diminuída. Apesar de se sentir bem, uma semana depois, os dados persistiram, levando-a a pesquisar e descobrir uma comunidade online de mulheres com experiências semelhantes. Semanas após o alerta inicial do aplicativo, Ravika confirmou a gravidez, enfrentando posteriormente um aborto espontâneo, também acompanhado por notificações de seu dispositivo.
Esses dispositivos se tornaram populares no Reino Unido, com a porcentagem de adultos britânicos utilizando-os quase dobrando entre 2019 e 2026, segundo o instituto YouGov. A detecção precoce da gravidez por meio desses aparelhos baseia-se na variação da temperatura corporal, um dos principais sintomas da gestação. Em um ciclo menstrual regular, a temperatura corporal permanece elevada até pouco antes da menstruação, mas na gravidez, ela se mantém alta, sendo detectável por sensores.
Contudo, a busca por essas informações em tempo real tem gerado um aumento da ansiedade em algumas usuárias. Sofia, outra mulher entrevistada, relata ter usado seu anel inteligente para monitorar suas gestações, que incluíram duas perdas. Ela acompanhava obsessivamente os dados de temperatura, o que a levou a uma intensa preocupação. Essas experiências levantam questões sobre o impacto psicológico da tecnologia na saúde mental das mulheres no período gestacional.
Stuart Lavery, consultor de medicina reprodutiva do University College Hospital de Londres, reconhece o desejo de obter informações precoces, mas alerta para a falta de dados mais robustos sobre a confiabilidade desses dispositivos no contexto da gravidez. Ele enfatiza a necessidade de mais pesquisas para validar a acurácia dessas percepções, evitando que a tecnologia eleve os níveis de ansiedade. Chris Curry, diretora clínica de saúde da mulher da Oura, reforça que o anel é uma ferramenta de apoio, não um substituto para a assistência médica.
A experiência de Ravika, que sofreu um aborto espontâneo, a fez considerar não utilizar o dispositivo em uma futura gravidez, receando que o monitoramento constante possa aumentar sua ansiedade. O uso desses dispositivos eletrônicos representa um avanço tecnológico no monitoramento da saúde, oferecendo insights valiosos, mas ressalta a importância do equilíbrio entre a informação digital e o acompanhamento médico tradicional.


