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Do 'vinho do diabo' a fenômeno editorial: o café na espiritualidade

Bebida, inicialmente rejeitada por algumas religiões, torna-se metáfora em livros devocionais que conquistam milhões de leitores, indicando uma nova relação entre fé e consumo cultural.

AJ
Redação AJISP
14 de julho de 2026 às 08:50 · há 3 d
Do 'vinho do diabo' a fenômeno editorial: o café na espiritualidade
Do 'vinho do diabo' a fenômeno editorial: o café na espiritualidade — Foto: G1

A ascensão do café como metáfora em livros devocionais tem transformado o cenário editorial brasileiro. Títulos como "Café com Deus Pai", do pastor Junior Rostirola, que vendeu mais de 10 milhões de exemplares desde 2023, desencadearam uma proliferação de obras que associam a bebida a momentos de reflexão e conexão espiritual. O sucesso editorial, que se estende a outras denominações cristãs e até mesmo a cultos de matriz africana com "Café com Exu", reflete o simbolismo do café como pausa, acolhimento e conversa íntima na cultura brasileira.

Essa aceitação religiosa da bebida contrasta com sua história. Registros antigos do século 6º, na Etiópia, descrevem o café como um estimulante. No século 14, monges ortodoxos etíopes teriam descoberto o aroma do grão torrado. No século 15, muçulmanos sufistas do Iêmen utilizavam o café para se manterem despertos durante orações noturnas, mas a bebida, por suas propriedades estimulantes análogas ao vinho (proibido no Islã), gerou debates. Juristas islâmicos, porém, não a proibiram, por não causar embriaguez.

Na Europa, por volta do século 16, o café chegou via Turquia e foi inicialmente rechaçado por cristãos, que o viam como o "vinho do diabo" ou a "bebida de Satanás" devido à sua origem árabe-islâmica. A tradição conta que a aceitação papal, atribuída ao papa Clemente 8º no início do século 17, que teria "batizado" a bebida após experimentá-la e considerá-la agradável, foi crucial para sua disseminação e consumo sem culpa entre os católicos, contribuindo para a sobriedade da população que antes consumia majoritariamente bebidas alcoólicas.

No entanto, algumas denominações cristãs ainda mantêm restrições ao consumo de café. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mórmons) proíbe a bebida, interpretando um mandamento de seu fundador, Joseph Smith, como um incentivo ao cuidado integral do corpo. A Igreja Adventista do Sétimo Dia, embora não proíba formalmente, orienta seus membros a evitar o café devido à cafeína, considerada uma substância que pode causar dependência e ir contra a saúde do "templo" que é o corpo humano.

Para o pastor Junior Rostirola, autor do best-seller "Café com Deus Pai", o uso do café no título simboliza uma pausa intencional para se conectar com o divino. Ele observa que o sucesso dessas obras reflete o valor cultural do café no Brasil, associado a momentos de convivência e reflexão. Especialistas em marketing literário, como Lilian Cardoso, e autores como Rubens Oliveira, que lançou "Café com Exu" para preencher lacunas editoriais, concordam que o título evoca acolhimento e proximidade, elementos chaves para o engajamento espiritual dos leitores.