Educação

Práticas violentas na educação infantil persistem apesar da defesa do diálogo

Pesquisa revela que, embora 91% dos brasileiros defendam a conversa como método educativo, grande parte ainda recorre a gritos e agressões físicas, evidenciando uma lacuna entre o ideal e a prática diária.

AJ
Redação AJISP
14 de julho de 2026 às 16:00 · há 2 d
Práticas violentas na educação infantil persistem apesar da defesa do diálogo
Práticas violentas na educação infantil persistem apesar da defesa do diálogo — Foto: G1

Uma pesquisa recente conduzida pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, aponta que métodos punitivos e violentos ainda são recorrentes na educação de crianças no Brasil, mesmo com a maioria da população defendendo o diálogo. O estudo, intitulado "Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes", revelou que 91% dos entrevistados consideram a conversa a principal estratégia para corrigir comportamentos infantis. Contudo, 62% admitiram já ter gritado com uma criança, 49% relataram ter dado tapas e 27% confessaram ter usado objetos para bater. Os dados foram coletados entre 29 de maio e 7 de junho de 2026, com 2.202 brasileiros de 128 municípios.

A pesquisa também destaca a persistência da tolerância social à violência. Sessenta e dois por cento dos entrevistados afirmaram que não interviriam se presenciassem uma criança sendo agredida publicamente, como com palmadas ou puxões de orelha. Esse percentual é similar ao registrado em 2023 (64%), sugerindo que a percepção de que a educação infantil é uma questão privada ou o constrangimento em interferir contribuem para essa omissão. Há uma discrepância notável entre o que é considerado aceitável e as práticas relatadas, com os brasileiros admitindo gritar com crianças mais frequentemente do que consideram essa atitude apropriada, ao mesmo tempo em que 74% acreditam que a violência contra crianças e adolescentes aumentou nos últimos anos.

Embora o diálogo seja o modelo ideal para 91% dos entrevistados, a pesquisa indica que formas punitivas de disciplina ainda encontram apoio. Apenas 7% consideraram tapas ou surras aceitáveis para crianças de até 10 anos que persistem em comportamentos inadequados, enquanto 42% optariam por uma conversa mais dura e 26% por castigos. O castigo como restrição de lazer é considerado ideal e aceitável por 47%, e aceitável (embora não ideal) por 25%. De forma preocupante, 37% consideram aceitável gritar com crianças e 35% veem como aceitável ameaçar bater.

A diretora executiva do Infinis, Márcia Kalvon, ressaltou que, apesar dos avanços legislativos e de conscientização sobre os direitos infantis, "ainda existe uma lacuna significativa entre aquilo que os brasileiros consideram correto e aquilo que acontece na prática". Em comparação com 2023, houve uma pequena melhora nos indicadores de violência relatada: a admissão de gritos reduziu de 66% para 62%, tapas de 52% para 49%, e uso de objetos de 38% para 27%. O apoio ao diálogo, porém, caiu ligeiramente de 93% para 91% no mesmo período.

O estudo também analisou a percepção sobre direitos infantis, apontando que, apesar de 93% priorizarem a educação, a aceitação do trabalho infantil em certas circunstâncias é alta. Para crianças de até 11 anos, 61% consideram aceitável trabalhar para evitar que fiquem nas ruas. Para adolescentes de 12 a 17 anos, essa aceitação sobe para 93%. Além disso, 71% dos entrevistados não souberam citar nenhuma lei de proteção à infância, e a pesquisa identificou uma correlação entre ter sido punido na infância e a tendência de aceitar e reproduzir práticas disciplinares mais rígidas na vida adulta, embora o estudo ressalte que essa relação não é determinante e muitos rompem esse ciclo. Psicólogos (60%) são a categoria profissional em que mais se confia para proteção de crianças, seguidos pela polícia (49%) e Conselho Tutelar (46%).