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Projeto de lei no Chile exige que grávidas ouçam batimentos cardíacos fetais antes do aborto

Deputados de extrema direita propõem alteração do Código de Saúde para impor uma escuta obrigatória dos batimentos cardíacos do feto, mesmo em casos de gravidez de risco ou estupro.

AJ
Redação AJISP
17 de julho de 2026 às 06:00 · há 4 h
Projeto de lei no Chile exige que grávidas ouçam batimentos cardíacos fetais antes do aborto
Projeto de lei no Chile exige que grávidas ouçam batimentos cardíacos fetais antes do aborto — Foto: G1

Um projeto de lei no Chile busca alterar o Código de Saúde para obrigar mulheres que buscam o aborto a ouvir os batimentos cardíacos do feto antes do procedimento. A iniciativa, apresentada por seis legisladores de inclinação conservadora e de direita, mobiliza o país, onde a interrupção da gravidez é permitida apenas em três situações específicas: quando a vida da mãe está em risco, em casos de estupro ou quando o feto apresenta uma condição congênita grave que ameace sua vida.

A proposta, intitulada “Escute o seu Coração”, determina um “dever médico” de mostrar à paciente a atividade embrionária. Embora a mulher possa recusar-se a ouvir os batimentos, o projeto estabelece que, nessa situação, “o médico também deve se recusar a realizar o aborto”. A justificativa do projeto é que o consentimento para a interrupção da gravidez só pode ser considerado válido quando a mulher possui todas as informações disponíveis sobre o procedimento, incluindo a “existência de atividade cardíaca”.

A iniciativa tem precedentes internacionais, com leis semelhantes implementadas na Hungria em 2022, sob o governo do ex-premiê Viktor Orbán, e em alguns estados dos EUA, como Kentucky, Texas, Arizona, Geórgia e Mississippi. No Brasil, proposta similar foi apresentada em 2023 pelo então vereador Carlos Bolsonaro (PL) na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, mas não avançou. O deputado Cristóbal Urruticoechea, do Partido Nacional Libertário e autor do projeto chileno, argumenta que ouvir os batimentos cardíacos auxilia a mulher na decisão e não pode ser prejudicial, sustentando uma visão conservadora sobre a gestação.

Contrariando a proposta, a ex-ministra da Mulher do governo Boric, Antonia Orellana, qualificou o projeto como “crueldade legislativa”, questionando a necessidade de tal exigência para mulheres em situações de vulnerabilidade, como as que enfrentam riscos de vida ou foram vítimas de estupro. As críticas também se estendem à ONG Miles Chile, cuja diretora executiva, Javiera Canales, descreve a medida como uma forma de coerção e revitimização, distorcendo o conceito de consentimento informado.

Dos seis deputados que apoiam a medida, cinco são dos partidos Nacional Libertário (PNL) e Republicano (PR), alinhados à extrema direita, e um do Renovação Nacional (RN), de centro-direita. O presidente José Antonio Kast, pai de nove filhos e abertamente antiaborto, distanciou seu governo do projeto durante a campanha, atribuindo a responsabilidade pela discussão ao Congresso, não ao poder Executivo. No entanto, a base de apoio da proposta é marcadamente ligada às tendências políticas do presidente.